mijar na cama aos 33



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estou no quarto de tia Alfredina em Coromandel
estive ali por todas as férias de minha infância
sua casa, seus móveis e objetos de costura
os botões
gostava dela daquele jeito de criança se sentir confortável na vida do outro
se projetar pertencendo ao espaço alheio
sentir aquela sensação prazeirosa de deslocamento e novidade 
desejo estético de habitar o lugar extracotidiano

estou no banheiro dentro de seu quarto
penso que seu quarto não tinha banheiro, ele ficava no corredor
me preocupo se alguém chegará, pois estou mijando de porta aberta
acordo quente e úmida






notas de chegada#3
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lá a vegetação estava muito seca. as cores meio desbotadas. muitas árvores sem folhas. pastos ralos e vacas magras. vi uma morta. calor escaldante. nunca vi tantos carros abandonados, despedaçados e enferrujados. entrar na água era um bálsamo. eu via muita beleza nisso tudo. uma beleza dura, árida, difícil. sabe? a densidade e grandiosidade das rochas marcam a paisagem. desafiam nosso entendimento do que é grande, pequeno, ínfimo. às vezes, durante os deslocamentos de carro, eu elegia os segundos que as coisas permaneciam em minha vista como uma unidade de medida possível e inexata, capaz de mensurar extensões. coisas humanas duravam muito pouco nas minhas vistas. as cavernas guardam algo de imponderável! são imensidões abertas debaixo da terra me convidando a estar mais. acho q fiquei muito pouco. é que sou do tipo slow | contemplativa. devo voltar em novembro, quero dormir pelo menos uma noite dentro de uma das cavernas. já o meu presente pra vc é uma leveza achada no meio disso tudo. uma parte transportável daquele lugar.







uma performance é um disparador de performances


[FABIÃO, Eleonora. Programa performativo: o corpo-em-experiência. In: ILINX - Revista do LUME. n.4, dez. 2013]

















Descasca-se laranjas
Cássia Nunes

PERFOR7 [Como?]
São Paulo
Nov. 2016

Fotografias de Sólon Rodrigues e Gilson Andrade



Descascar laranjas, descascar a si mesma. Somos constituídos por uma multiplicidade de elementos, de camadas. Casca, pele, polpa, sementes, sumo, bagaço. Manifestamos e acessamos tais elementos em diferentes situações, a partir das experiências que cotidianamente nos atravessam. Tomando a laranja como mote para tratar das relações entre interioridade e exterioridade do eu, a performance instaura um espaço de encontros e provocações, onde a demonstração das habilidades pessoais na descascação das laranjas potencializa o compartilhamentos de saberes, memórias e afetos.

































Aparição
Cássia Nunes

Participação, Performance e Política 2016
(Lago Oeste, Brasília-DF)

fotografia de Natasha de Albuquerque



Inventar entidades na criação de uma mitologia pessoal e recebê-las. Vestir um chifre falo espinho perigo. Um unicórnio tingido a açafrão evocando um devir-pequi. Mulher amarela com um falo na cabeça. Ser do cerrado em aparição na pista de alta velocidade, como um animal cuja existência é pura travessia. Ameaçador e ameaçado. Sumir no fluir dos carros, pelas beiras, entre placas e sinalizações. Não se orientar por elas. Fugir. Vagar. Esperar o chamado do desejo por novos lugares a serem penetrados, arranhados, espetados.







Vídeo Branco (2016)
Cássia Nunes
DADASpring - Exposição Coletiva Ruminescências
(Cabaret Voltaire, Goiânia/GO)

frames de vídeo







Metamorfoses (2016)
Vídeo de Cássia Nunes
Música de Luiz Gonçalves
Texto: fragmentos de "Metamorfoses" de Ovídio (trad.: Bocage)

Frames de vídeo













Composição em branco
Cássia Nunes

ROÇAdeira – Encontros performáticos em lugares improváveis (Goiânia-GO, 2015)
Feminino Plural (Pirenópolis-GO, 2015)
Fotografias de Arnaldo Lobato e Rubens Pileggi


Composição em branco surge como um diálogo com o trabalho do artista Alex Botega, tendo como mote a técnica desenvolvida pelo artista – inspirada na tradição das paneleiras artesãs de Pirenópolis, as formas e materiais de suas esculturas e a gestualidade própria do fazer escultórico expressas nas ações de modelar, polir e trabalhar superfícies, criando e cobrindo camadas sobre camadas.
Manipulando artefatos industrializados de alumínio, por meio de procedimentos ancestrais de polimento e limpeza, a artista concebe uma poética da composição e diluição no branco, na qual ritualiza um conjunto de ações capazes de evidenciar as relações entre os principais objetos e materiais utilizados: alumínio, argila branca e areia. Transformando os objetos e seu próprio corpo em molde para a criação de sua poética, a performer também estabelece um contraponto às cores características do trabalho de Botega, por ela percebidas como reflexos de seu imaginário acerca do feminino.
Deste modo, a diluição de seu corpo e dos objetos no branco (ou a busca pelo branco), também se realiza enquanto uma diluição e apagamento do próprio feminino e suas representações coletivas, potencializados pela criação de um campo monocromático. Neste, o branco representa a ausência, o esvaziamento e a energia criadora, como também o próprio desejo da artista de reinventar-se em sua singularidade.










ao lavar a louça
quantas formigas mato por dia

¿








tenho problemas de v,rgula








notas de chegada#2
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Durante meu banho de chegada, escorreu pelo ralo do banheiro uma abundância de águas goianas tingidas pelo pigmento ferroso das águas daquele Igarapé, onde me despedi de Macapá. Retornei com a pele avermelhada. Por terra e ar, a cor deste outro lugar em mim viajou até aqui.




Variações
Cássia Nunes

Corpus Urbis (Macapá-AP, 2015)
Fotografia de Naldo Martins



Refletindo sobre a possibilidade de se definir com exatidão o trajeto que marcaria a passagem da linha do Equador na cidade de Macapá, a artista propõe uma série de procedimentos performáticos para sua participação no evento Corpus Urbis.

1#Procedimento: Coletar águas de rios que marcam lugares relacionados a alguns dos grandes deslocamentos geográficos realizados em sua trajetória de vida. Rio Uberabinha (Uberlândia-MG), Rio das Almas (Pirenópolis-GO) e Rio Amazonas (Macapá-AP).

2#Procedimento: Sempre que sentir vontade de beber água, a artista fará o cálculo do volume de sua sede utilizando alguns instrumentos de medição e uma fórmula inventada. Tal fórmula expressa sua busca por criar um imaginário matemático-poético que expresse suas especulações envolvendo: as alterações de seu corpo em relação ao ambiente, a exatidão dos instrumentos de medição usados e as variações sutis percebidas entre os resultados dos cálculos efetuados ao longo dos dias de realização da performance.

3#Procedimento: Transportar as águas coletadas até o monumento Marco Zero e utilizá-las para realizar seu batismo equatorial, marcando simbolicamente a primeira vez que cruzou a linha do Equador e chegou ao Hemisfério Norte.