Não se nasce mulher,
se torna mulher.
Para isso,
você acaba comendo muitos dos batons de sua mãe
até descobrir que a função deles
é enfeitar não só a penteadeira,
mas também a cara
e principalmente, as relações.











Fernanda Amaro (1 dez. 9h6'): cósmico-revolucionário!


Cássia Nunes (1 dez. 9h17'): retirar uma fatia do tempo acelerado e esmiuçá-lo no preparo do alimento. refeição. quando uma faca e um dente de alho se encontram realizo micromovimentos. crio padrões de formas e tamanhos ao cortar a abóbora. delicadeza. cuidar de si cozinhando.


Fernanda Amaro (1 dez. 9h29'): ontem acompanhei suas poéticas caseiras, contadas por vinte e cinco pardais do quintal. suponho que suas expansões do presente estejam vibrando e ecoando pelos corredores da sua casa, do quarto à cozinha. preciso da permanência para pensar no deslocamento. mas o mundo não é binário assim.... e que grande viagem esta, ficar aqui parada! qual chá te apetece?


Cássia Nunes (1 dez. 9h49'): uma casa situada numa rua de uma cidade qualquer. ser localizado por um código postal, olhar pra conta de água e ler o nome da rua e o número da casa. muitos detalhes habitam uma casa e se movimentam debaixo de seu telhado. alguns são trazidos de fora, dos desejos que o estar fora da casa me despertam. sim, grandes viagens! na permanência e presente habitação, elaborar um desapego dos objetos e suas organizações. não se incomodar com a divisão dos cômodos, não se acomodar na possível fixidez de um endereço. passo um café para abrir os olhos do dia. para o fim da tarde ou para o preparo do repouso noturno um chá de erva-doce.













é chuva e das fortes
cai um pingo em meu colo
surpresa, olho pra cima
cai outro no rosto
pela janela percebo a inclinação da chuva causada pelo vento
me levanto
percorro os cômodos procurando por goteiras
porque aqui, o telhado se apresenta nu






só se pode guardar
a linha de costura da vida
na própria casa.

naquela, fundada sob
a fisicalidade do corpo
e seus estados temporais.













limpar a casa sempre será uma medida paliativa














o telhado da casa é uma pele de espessura mínima
atravessado pelo vento que vem mover os meus cabelos e me fazer escorregar pra debaixo de um cobertor
o telhado cobre transformando em intimidade
me esconde o céu manchado de nuvens
encobre acontecimentos
ouço o vento no telhado e procuro por alguns significados
tempestuoso: sujeito a tempestade, que traz tempestade
debaixo de uma película observo sua fragilidade
basta uma tempestade impetuosa para lançar ao vento telhas e não-ditos
impetuoso: que se move violenta e rapidamente
se lançar contra o telhado e fraturá-lo
saltar ao chão e escolher uma direção
não
não escolher
apenas caminhar, sem pensamentos
seguir
sentindo
ando propensa a encontrar o delírio no corriqueiro e ordinário
perigoso: em que há risco, que causa ou ameaça risco
mover-se seguindo o desejo pelo que ‘está’
me perdi observando a casca de uma cigarra
como sair sem destruir a casca?





















escrever sobre a casa é livrar-se dela







Splitting
Gordon Matta-Clark, 1974








"A árvore se refugia na folha, a casa na porta e a cidade na casa. E eu contemplava o mesmo espetáculo, sempre e sempre. A árvore convertida em folha, a casa em porta e a cidade numa casa. Por isso, devia reunir esforços para não refugiar-me em minhas próprias mãos."

(Fando y Lis / Jodorowsky, 1968)















Pra ter a casa habitada é preciso deixá-la suja!

Arredar uma mesa que ficava encostada na parede já parece um convite para ocupar o espaço e dinamizá-lo.

Ando desleixada com a limpeza, porém parece que tudo está organizado.
Até demais!
A porta da sala já não abro mais, com o tempo passou a fazer um barulho insuportável raspando no chão.
Somente a porta da cozinha!

Reduzir-me em minhas próprias mãos.
Correr o risco de se quebrar de tanto pressionar com os dedos.
Escorrer entre os próprios dedos.
Segurar-se com as próprias mãos, alojar-se na palma destra, não ver além do fim da linha da própria mão.
Sabe-se que há mais, sempre há!

Penso que chegará a hora em que desistirei de abrir todas as portas e janelas e me mudarei.
Não terei casa.
Tampouco louça, panelas, guarda-roupas, geladeira, fruteira, lixo, gavetas, estantes.
Nada que se guarde, que empoeire, que pese e imobilize para uma ação rápida e espontânea.


:.


"a casa pode ser uma casa.
uma vivenda.
uma oca.
um apartamento.
uma cela.
uma árvore.
um quarto de hospital.
uma sala.
uma cozinha.
uma calçada.
uma caixa.

a minha casa pode não ser nada disso."



(Poema do livro-objeto Os eventos são quase sempre os mesmos de Lourdinha Barbosa. O livro é composto por envelopes de cartas em caixinha de papelão)


:.


escrever um livro em envelopes é um convite ao desalojar-se.


:.


Pegar todas as roupas e sapatos, neles plantar espécies de samambaias e outras plantas que vivam dependuradas e depositar em casas abandonadas.
Convidar as pessoas para que visitem os locais e levem água para molhá-las.
Quando não mais vivos estiverem os vasos-vestimentas, simbolizada estará a mudança e o abandono desta mania de se fixar.






:::

.:


estava pendurando uma gaiola que se parecia com um móbile. pássaros de madeira balançavam presos do lado de fora de sua base. apesar da empolgação com o novo enfeite, olhei para a paisagem através da parede de vidro da sala. era uma mata com árvores bonitas. o céu estava lindo, com nuvens em formatos e cores convidando à contemplação. notei não ter abertura alguma em minha casa. nenhuma porta ou janela. tal parede de vidro me permitia ver o que existia lá fora, mas não possuía nenhuma saída. como se minha alma saísse do corpo, me vi dentro da casa pelo lado de fora da mesma. a arquitetura de minha casa era semelhante a uma gaiola.


.:


acordei e olhei para os enfeites pendurados na parede. um postal sobre lygia clark, uma pintura em longplay, um pente indígena. os coloquei ali durante a manhã. ultimamente, tenho recordado apenas os sonhos dos cochilos pós-almoço. pensei comigo, sendo filha de estelina: sua casa não pode ser sua prisão!


.:


uma semana depois da mudança resolvi deixar a casa ficar suja e bagunçada, para sentir ser este espaço habitado por mim, meus movimentos e fluxos de energia.


.:


planejo mudar a disposição dos móveis da sala e quarto de hóspedes.


.:


cerca de seis meses morando nesta casa, não compro mais nenhum utensílio doméstico. não vejo beleza nos pequenos detalhes pendurados na parede. não noto o espaço como antes. espero ansiosamente pela chuva do fim de setembro, para transformar toda a poeira do ar em barro do chão.


.:


a previsão do tempo é de chuva na segunda-feira. hoje não limpei a casa.


.:



(domingo, 25 de setembro. ouço o vendaval e os chuvisco no telhado)

coletânea de 7 dias
trajetos cotidianos
.::.


anel de fogo envolvendo o morro do frota queimando noite a dentro
.
ipês brancos floridos plantados à beira do muro da escola
.
cadáver de cachorro sendo arrastado, preso à moto por uma corda
.
partes descarnadas do corpo de uma vaca jogadas no acostamento da rodovia
.
quadro de 3 bicicletas jogadas em terreno baldio
.
motorista de caminhão buzinando e mandando beijinho com a mão
.
lagartixa correndo de debaixo das almofadas da sala
.
barulho de avião supersônico passando invisível no meio da tarde (ao procurá-lo pelo céu vi uma folha caindo sem árvores por perto)
.
cigarras cantando camufladas na mata
.
cachorro gordo parecido com ovelha no supermercado pela manhã
.
senhor estudando flauta doce na porta de sua casa
.
fuligem presa ao telhado do banheiro
.
.
.
.
.
.
.

combinações aleatórias
manhã de quarta-feira

>>>

cássia lendo o texto "autobiografia de una socióloga neozelandesa sobre la educación de las mujeres"
obs: a autora acaba de assumir uma análise feminista socialista

)¨(
( v )

vizinha da cássia ouvindo "kika kika kika na latinha que eu quero ver a cor da sua calcinha"

<<<

voz interior c1: é mole?
voz interior c2: tb fica duro!

º)º
a novidade da casa

ontem, enquanto limpava casa levei um susto
daqueles que te faz sorrir e arregalar os olhos.
dias atrás, comprei um pequeno cacto
ele veio com aquelas flores artificiais que misteriosamente se fecham quando são molhadas
eram vermelhas
arranquei as florinhas e...
o cacto floriu por si
flores brancas
o libertei?


:.


guto diz: Reconciliação vegetal...
ou melhor, reconciliação vegetal/mineral/animal!


:.


para todos os trabalhadores da segurança pública,

q qdo fardados se sentem um super-homem (mais um) cheio do direito de extravasar suas frustrações pessoais. o salário não o contenta, pode ser q more na periferia (numa casa mal acabada), tb come daquele arroz com feijão pexinxado como a maioria do povo brasileiro. mas qdo veste a farda, ele interpreta (realiza e representa) o poder q o sentencia cotidianamente à uma vida de insatisfações e desejos irrealizáveis.

vide a marcha da liberdade em SP, todas aquelas percorridas pelo BR contra os aumentos abusivos das passagens de ônibus, aquelas realizadas por professores das redes públicas de ensino reivindicando melhores condições de trabalho e tantas outras em q o super-homem não está acompanhando e intervindo para salvaguardar seu povo (comedor de uma dieta de poucos nutrientes), mas sim aquele q calcula e determina seu salário de arroz com feijão!





:.



para ser artivista, é preciso ser meio gato e dispor de sete vidas!



:.







o que há para ser feito com longplays?
como os sentem as peles normais?

:.

homem de lugar algum,
ah! quem sou em realidade?
ele não é um pouco como eu e você?
não sei o que estou falando!
tão pouco tempo, tanto para aprender!





para encerrar uma semana de trabalho.
bom fim de semana, colégio senhor do bonfim!





















tá osso?
pega na escova!

















19

:

Os filósofos costumam falar da vontade como se fosse a coisa mais conhecida do mundo. Schopenhauer deu mesmo a entender que a vontade é a única coisa que conhecemos, que conhecemos perfeitamente, sem mais nem menos. Mas sempre me parece, nesse caso, que Schopenhauer fez apenas o que os filósofos costumam fazer: adotou e exagerou um preconceito popular. "Querer" me parece, antes de mais nada, algo complicado, algo que só possui unidade como palavra. E é exatamente em uma única palavra que reside o preconceito popular que enganou a pouca prudência dos filósofos. Sejamos, pois, mais sérios, mais discretos. Sejamos menos filósofos e admitamos que em todo querer há, primeiramente, uma pluralidade de sensações, ou seja, a sensação do estado do qual queremos nos afastar, a sensação do estado ao qual queremos chegar, a sensação do "afastar" e do "chegar". Além disso, há uma sensação muscular que se manifesta simultaneamente, e que entra em jogo desde que o "queiramos", mesmo sem movimentar "braços e pernas". Do mesmo modo, várias outras sensações devem ser consideradas como ingredientes da vontade, assim como a reflexão. Em cada ato da vontade há um pensamento que comanda, e não devemos acreditar que se possa separar este pensamento do "querer", como se ainda, depois disso, houvesse vontade! Em terceiro lugar, a vontade não é somente um complexo de sensações e reflexões, mas também um estado afetivo, a emoção derivada do comando. O que se chama "livre arbítrio" é essencialmente o sentimento de superioridade ante um subalterno. "Eu sou livre, ele deve obedecer", eis o que há no fundo de toda vontade, a certeza íntima que constitui o estado de ânimo de quem manda. Querer significa ordenar a algo dentro de si, que obedece ou, pelo menos, é considerado obediente. Mas vejam qual é o aspecto mais estranho dessa vontade, dessa coisa tão complicada, para a qual o povo tem uma só palavra. Sendo nós, no caso citado, ao mesmo tempo os que comandam e os que obedecem, e conhecendo, na hora de obedecer, as sensações de constrangimento, obrigação, pressão, resistência, movimento, que costumam começar imediatamente após o ato da vontade, e tendo nós, por outro lado, o hábito de ignorar essa dualidade, de nos iludirmos a seu respeito, utilizando o conceito sintético "eu", toda uma cadeia de conclusões errôneas, e, consequentemente, de falsas valorizações da própria vontade, se liga ainda ao querer. Assim, aquele que quer julga, de boa fé, que basta querer para agir, mas, na maioria dos casos, a vontade só acontece quando ocorre a eficácia do comando, isto é, a obediência. Como resultado, a ação, a aparência, se traduz na sensação de que havia uma necessidade de efeito. Aquele que quer, passa a imaginar, com alguma certeza, que querer e fazer são idênticos. Ele atribui o êxito à própria vontade, à realização do querer, e goza assim o prazer de superar obstáculos com a idéia de que sua vontade triunfa sobre as resistências. "Livre arbítrio" - eis a expressão para esse estado complexo de prazer resultante do querer, que comanda e ao mesmo tempo se identifica com o executante, que goza o triunfo obtido sobre os obstáculos, imaginando que a vontade triunfou. Aquele que quer obtém, assim, a sensação de prazer nascidas dos instrumentos que executam e realizam, das "vontades subalternas" ou "almas subalternas" que obedecem, pois nosso corpo não é senão uma coletividade de numerosas almas. L'effet c'est moi. Acontece aqui o mesmo que ocorre em toda coletividade organizada e feliz. A classe dominante se apropria dos sucessos da comunidade. Em todo querer se trata simplesmente de mandar e obedecer, dentro de uma estrutura coletiva complexa, constituída por "muitas almas". Portanto, o filósofo deveria considerar o querer a partir do ângulo da moral, a moral como conceito de soberania, de onde brota o fenômeno da vida.


[NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal. Tradução: Lilian Salles Kump. São Paulo: Centauro, 2006.]
.
.
.
.
.
.
.
homem:
makan, o que há de errado com seu amigo?

makan: é a viagem.
homem: é verdade, ele não está bem hoje!
makan: maata, o que há de errado?
maata: nada, graças a deus!
makan: não. eu te conheço!
maata: nada, graças a deus! não gosto de histórias de viagem. não gosto de viajar. não gosto de ver ninguém partir. um dia, um amigo veio me visitar. o nome dele era ethmane. ele perguntou: "maata, está livre?", respondi: "sim, estou!"; ele então me mostrou dois bilhetes de avião "um para mim, outro para você. vamos sair daqui"; eu disse: "não vou!", ele implorou para que eu fosse. eu disse: "ethmane, você é meu amigo, um bom amigo! você tem consideração por mim e quer me agradar, também quero! mas, não quero sair daqui! e não quero que você saia também!". esse ethmane, hoje, não sei por onde anda. ainda penso nele. talvez, isso explique o peso no meu coração.

(heremakono, dir. abderrahmane sissako, 2002)
.
.
.

.
.
.
.
.
.
grandes mudanças ocorrem após ciclos de nove meses

observe a vida dos outros
veja como pilhas de cartas, bilhetes, fotografias e objetos importantes vão parar dentro de sacos pretos 100 litros
quando criança eu gostava de ficar no vitrô do alpendre da casa onde morava
observe a vida dos outros
não gosto de ficar quando as pessoas saem
nos últimos dias, decidi sempre sair antes
quando os outros partem, parece começar uma daquelas histórias "e foram felizes para sempre"
parece
de vez em quando, parta também
e sinta a sensação da não existência de tais historinhas
deseje voltar pra perceber a impossibilidade disso acontecer
se você for cabeça dura ou medrozo demais, volte e encontre todas as ausências
provavelmente, sairá correndo como um tolo abana lenço de cais
observe a vida dos outros
e vá embora
.
.
.
.
>>>
.
.
.
.
meu amigo,


somos irmãos gêmeos postiços. depois de nove meses juntos, seu parto (partida) forçou o meu (novo de novo).
novas luzes, novos rumos.
não repare, mas vou sair antes de você terminar de esvaziar essas gavetas em busca de novos espaços e virar o carro na direção da estrada.

com amor,
cássia
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
a gente cresce e percebe
que a caixa de bis
não é tão grande assim
.
.
.
.
.
.
.
.
.

nódulo
na garganta existe um nó
esta região virtual de onde algo sai em expressão
na mente muito se movimenta
surge, se torna passado
e perde o momento por causa do nó na garganta
a garganta fica um pouco antes do meio do caminho
se está obstruída não há criação
só imaginação
passaram as eleições
a bienal de são paulo
a briga com o filho do coronel da cidade
perdi as fotos do café da manhã na dona sebastiana
tantas coisas se tornaram passado
não vieram parar aqui
neste endereço meio esquecido
acacia marginata
marginalis, marginal, margear
estabelecer um endereço pra existir à margem?
do quê?
não posso eu, ficar à margem do meu próprio endereço
tomo chás pra desfazer os nós
faço uma pausa no que me retira deste lugar
desfaço os nós e crio meu mapa com a linha da vida

.
.
.
.
.
.
"tentei compreender a costura da vida
me enrolei pois a linha era muito comprida"
.
.

.
.
Costura da vida, Tambolelê
(Composição de Sérgio Pererê)
do silêncio da concha
ana reis e cássia nunes

Por meio de experiências que ativam o espaço e suas potências sensoriais, uma performance instaura-se durante três dias na praça Tubal Vilela em Uberlândia, no espelho d’água localizado em frente ao posto policial, onde antes existia uma concha acústica (até o ano de 1992).
Através do cuidado com o lugar, ao lavar e encher o espelho d'água, e da ativação da sensibilidade no contato com água e conchas, a ação questiona os usos e transformações do espaço público trazendo à tona novas propostas de ocupação.

Depositando no espelho a água coletada em cachoeiras da cidade com algumas garrafas pet, efetuamos uma ação simbólica que conecta o elemento de fluxo entre o natural e o urbanizado, remetendo ainda a um ritual de purificação.

Ouvimos conchas do mar e convidamos os passantes a ouví-las e entrar no espelho d'água. A analogia da concha acústica com a concha do mar e a tentativa de ouvir, no silêncio da concha, o som de um outro espaço ou de um outro tempo, cria um estímulo para a transcendência e a reinvenção do lugar cotidiano que se encontra impregnado pelo signo da vigilância.

Ao dialogar com o elemento arquitetônico e remontar à memória do espaço, a performance convida o transeunte a refletir sobre seu próprio corpo no espaço urbano e como este pode ser transformado pela sua ocupação e interferência.


ação realizada nos dias 01, 02 e 03 de setembro de 2010










fotografias de thiago carvalho


A performance integrou o projeto Arte Móvel Urbana, realizado pela Secretaria Municipal de Cultura de Uberlândia-MG. Os registros desse e dos outros quatro trabalhos selecionados para o projeto encontram-se em exposição na Casa da Cultura, até o dia 16 de outubro.


vídeo em exposição:
guarany lavor e ricardo alvarenga

Arte nas ruas resgata memória de Uberlândia
Jornal da Vitoriosa


"já qui tu vai lá prá fêra...
trais pra mim uãs brividade
qui eu quero matá a sôdade
fais tempo qui fui na fêra
ai sôdade..."
[o pidido, elomar]




junho
domingo de feira do troca
duas vezes por ano, pessoas se reunem na praça da igreja na currutela de olhos d'água pra trocar o que seja
forram a grama e espalham tudo que levaram
eu fiquei perambulando com uma mochila cheia de troços
uns vão porque produziram um, ou vários, gêneros de coisas e desejam voltar com outros, o que tiver por lá
outros vão só pra se sentir ali
existe diferença entre necessidade e diversão?
no meio daquela movimentação de pessoas
tem também quem vai pra vender (e não são poucos)
mas, não era feira do troca?
há também quem quer lucrar sem pegar no dinheiro
como assim?
é, tem gente que tenta tirar vantagem em cima de quem está doido pra trocar alguma coisa
a filosofia do seis por meia dúzia nem sempre predomina
só sei, que nas trocas que fiz senti uma sensação diferente
até abraço rola depois de fechar negócio
sem falar naquela senhora que só aceitou minha proposta porque queria me ver satisfeita
ela nem precisava da sandália, mas eu tava com os olhos brilhando em cima das plantas dela

agosto

ontem, perguntei pra meus alunos se eles sabem o que é feudalismo e capitalismo
reduzi a pergunta, fiquei só no capitalismo
fizeram silêncio, olharam pros colegas, gaguejaram
não responderam como aprendi na academia
outros professores diriam que eles não sabem porque são 'alienados'
mas eles sabem, e muito!
eles o vivem
tenho alunos serventes de pedreiro, artesãos, trabalhadores das pedreiras, do comércio e do turismo (qual a diferença entre estes três últimos mesmo?)
eles sabem sim
só organizamos em palavras o que eles percebem com seus corpos em movimento pela vida
gostaria de levá-los na próxima feira do troca
mas, dizem que chove muito e vira uma lamaceira






saí de casa com:
1 mochila peruana que foi de uma prima minha
1 par de sandálias usadas umas três vezes só
1 par de sandálias da mãe do vinícius
4 trequinhos de pregar na parede para pendurar outros trecos
X penas de pavão recolhidas aqui na chácara no período em que os bichos trocam a penugem
1 garrafão de vinho ruim
4 calotas velhas do carro do vinícius
1 capacete estragado
1 fruteira gigante e velha

as trocas:
1 planta com dois brotinhos pelas sandálias da mãe do vini
1 negócio estragado de escovar algodão pela fruteira
1 bolsa por 1 treco de pendurar
1 garrafinha de pinga+1 vela por 3 trecos
3 tapetes pelas minhas sandálias
não me lembro mais do que fiz da bolsa hippie

obs: voltei com as penas e o resto porque fiquei com preguiça de oferecer. comprei uns brincos de um indiano que estava acompanhado de sua esposa, eles me deram um bolinho de mandioca e um pedaço de torta de maçã com canela. juro não ter pedido nem feito cara de fome! esse foi o momento mais bonito de toda a feira, foi o que menos entendi. voltei pensando nesses dois.



.
.
.
.
.
.
.
.

.
.
.
.

.
.
.
.



.
.
.
.
.
.
.
.

prum donato trópicofloral
sei lá com essa bananeira

.
.