segunda sessão de análise.
saio pensando sobre esse processo terapêutico de ficar falando de mim
para uma estranha que não fala de si.
método esquisito de troca.
desculpa pra ter onde chorar.
escondo os olhos marejados com os óculos escuros e encontro minha imagem refletida na cidade.
no chão.
fui me esconder, mas
a rua me expôs
num espelho quebrado,
camuflado numa moita,
escorado num muro marcado pelo acúmulo de inscrições marginais,
camadas de tintas,
desgastes e remoções de parte do seu reboco.
palimpsesto.
meu rosto refletido se compõe
do lado esquerdo
com o buraco do muro e a exposição de seus tijolos,
do lado direito
com uma via de passagem de veículos e pessoas.
penso na análise como a conciliação de dois caminhos.
um de escavação e entranhamento da self.
outro de fluxo e desmistificação
de nossos trânsitos, 
comunicação
e atravessamentos com outros corpos.
incontinência
de urina
de sangue
de tesão
a Iansã recém nascida
gritou seu nome próprio
bem nas minhas vistas

tempestade se formou nos meus olhos
e esparramou 
água salgada que mina nos olhos
deságua na boca
goteja no queixo
incha os olhos
congestiona as vias respiratórias
acelera batimentos cardíacos
espalha calor pelo corpo
constrange quando é na frente dos outros

chorar me sarou de uma conjuntivite insistente
dizem que sal cura cicatriza etc e tal
sal de lágrimas pode mais
a cada milágrimas sai um milagre
me disseram uma só vez
notas de chegada#4
.

o carnaval jogou meu corpo nos excessos
de cores, brilhos, danças, misturas
testou o que se sei sobre meu limites

multidão é perdição
as fricções dos corpos tensionaram
os contornos do meu corpo
as fronteiras porosas das selfs
e as tramas dos tecidos
roupas se tornavam esponjas
encharcadas de todos os suores
confundindo as umidades dos corpos
e as potências de minhas glândulas


voltei com olhos de fantasia
e desejo de morar naquele lugar que desconheço
voltei sem saudades da minha cama
do gato e das roupas que ficaram
do meu lugar nesta cidade
daquilo que chamo de casa
voltei sem sentimento de pertencimento

me perdi
Oxóssi mora na minha cabeça.
Dela, ele observa o mundo
o movimento dos seres.
Espera o melhor momento.
Ele sabe para quê, mas ainda não me disse.



                                           Do vitrô do alpendre
Uberaba|MG                         minha criança passava horas observando a rua.
90's                                     Ela gostava de se sentir camuflada no vitrô
                                           para olhar as pessoas vivendo.



Aguardo Oxóssi me ensinar
sobre o melhor momento
daquilo que nunca se sabe antes de acontecer.
Com ele aprendo que
o vazio da espera não é desatenção.



mijar na cama aos 33



:
estou no quarto de tia Alfredina em Coromandel
estive ali por todas as férias de minha infância
sua casa, seus móveis e objetos de costura
os botões
gostava dela daquele jeito de criança se sentir confortável na vida do outro
se projetar pertencendo ao espaço alheio
sentir aquela sensação prazeirosa de deslocamento e novidade 
desejo estético de habitar o lugar extracotidiano

estou no banheiro dentro de seu quarto
penso que seu quarto não tinha banheiro, ele ficava no corredor
me preocupo se alguém chegará, pois estou mijando de porta aberta
acordo quente e úmida






notas de chegada#3
.
lá a vegetação estava muito seca. as cores meio desbotadas. muitas árvores sem folhas. pastos ralos e vacas magras. vi uma morta. calor escaldante. nunca vi tantos carros abandonados, despedaçados e enferrujados. entrar na água era um bálsamo. eu via muita beleza nisso tudo. uma beleza dura, árida, difícil. sabe? a densidade e grandiosidade das rochas marcam a paisagem. desafiam nosso entendimento do que é grande, pequeno, ínfimo. às vezes, durante os deslocamentos de carro, eu elegia os segundos que as coisas permaneciam em minha vista como uma unidade de medida possível e inexata, capaz de mensurar extensões. coisas humanas duravam muito pouco nas minhas vistas. as cavernas guardam algo de imponderável! são imensidões abertas debaixo da terra me convidando a estar mais. acho q fiquei muito pouco. é que sou do tipo slow | contemplativa. devo voltar em novembro, quero dormir pelo menos uma noite dentro de uma das cavernas. já o meu presente pra vc é uma leveza achada no meio disso tudo. uma parte transportável daquele lugar.







uma performance é um disparador de performances


[FABIÃO, Eleonora. Programa performativo: o corpo-em-experiência. In: ILINX - Revista do LUME. n.4, dez. 2013]

















Descasca-se laranjas
Cássia Nunes

PERFOR7 [Como?]
São Paulo
Nov. 2016

Fotografias de Sólon Rodrigues e Gilson Andrade



Descascar laranjas, descascar a si mesma. Somos constituídos por uma multiplicidade de elementos, de camadas. Casca, pele, polpa, sementes, sumo, bagaço. Manifestamos e acessamos tais elementos em diferentes situações, a partir das experiências que cotidianamente nos atravessam. Tomando a laranja como mote para tratar das relações entre interioridade e exterioridade do eu, a performance instaura um espaço de encontros e provocações, onde a demonstração das habilidades pessoais na descascação das laranjas potencializa o compartilhamentos de saberes, memórias e afetos.

































Aparição
Cássia Nunes

Participação, Performance e Política 2016
(Lago Oeste, Brasília-DF)

fotografia de Natasha de Albuquerque



Inventar entidades na criação de uma mitologia pessoal e recebê-las. Vestir um chifre falo espinho perigo. Um unicórnio tingido a açafrão evocando um devir-pequi. Mulher amarela com um falo na cabeça. Ser do cerrado em aparição na pista de alta velocidade, como um animal cuja existência é pura travessia. Ameaçador e ameaçado. Sumir no fluir dos carros, pelas beiras, entre placas e sinalizações. Não se orientar por elas. Fugir. Vagar. Esperar o chamado do desejo por novos lugares a serem penetrados, arranhados, espetados.







Vídeo Branco (2016)
Cássia Nunes
DADASpring - Exposição Coletiva Ruminescências
(Cabaret Voltaire, Goiânia/GO)

frames de vídeo







Metamorfoses (2016)
Vídeo de Cássia Nunes
Música de Luiz Gonçalves
Texto: fragmentos de "Metamorfoses" de Ovídio (trad.: Bocage)

Frames de vídeo













Composição em branco
Cássia Nunes

ROÇAdeira – Encontros performáticos em lugares improváveis (Goiânia-GO, 2015)
Feminino Plural (Pirenópolis-GO, 2015)
Fotografias de Arnaldo Lobato e Rubens Pileggi


Composição em branco surge como um diálogo com o trabalho do artista Alex Botega, tendo como mote a técnica desenvolvida pelo artista – inspirada na tradição das paneleiras artesãs de Pirenópolis, as formas e materiais de suas esculturas e a gestualidade própria do fazer escultórico expressas nas ações de modelar, polir e trabalhar superfícies, criando e cobrindo camadas sobre camadas.
Manipulando artefatos industrializados de alumínio, por meio de procedimentos ancestrais de polimento e limpeza, a artista concebe uma poética da composição e diluição no branco, na qual ritualiza um conjunto de ações capazes de evidenciar as relações entre os principais objetos e materiais utilizados: alumínio, argila branca e areia. Transformando os objetos e seu próprio corpo em molde para a criação de sua poética, a performer também estabelece um contraponto às cores características do trabalho de Botega, por ela percebidas como reflexos de seu imaginário acerca do feminino.
Deste modo, a diluição de seu corpo e dos objetos no branco (ou a busca pelo branco), também se realiza enquanto uma diluição e apagamento do próprio feminino e suas representações coletivas, potencializados pela criação de um campo monocromático. Neste, o branco representa a ausência, o esvaziamento e a energia criadora, como também o próprio desejo da artista de reinventar-se em sua singularidade.