Beber de nós
Performance
Cássia Nunes
15'

Fotografia de RG Fotográfico

Liberté - Maio 2018 (Cabaret Voltaire, Goiânia|GO)































segunda sessão de análise.
saio pensando sobre esse processo terapêutico de ficar falando de mim
para uma estranha que não fala de si.
método esquisito de troca.
desculpa pra ter onde chorar.
escondo os olhos marejados com os óculos escuros e encontro minha imagem refletida na cidade.
no chão.
fui me esconder, mas
a rua me expôs
num espelho quebrado,
camuflado numa moita,
escorado num muro marcado pelo acúmulo de inscrições marginais,
camadas de tintas,
desgastes e remoções de parte do seu reboco.
palimpsesto.
meu rosto refletido se compõe
do lado esquerdo
com o buraco do muro e a exposição de seus tijolos,
do lado direito
com uma via de passagem de veículos e pessoas.
penso na análise como a conciliação de dois caminhos.
um de escavação e entranhamento da self.
outro de fluxo e desmistificação
de nossos trânsitos, 
comunicação
e atravessamentos com outros corpos.
incontinência
de urina
de sangue
de tesão
a Iansã recém nascida
gritou seu nome próprio
bem nas minhas vistas

tempestade se formou nos meus olhos
e esparramou 
água salgada que mina nos olhos
deságua na boca
goteja no queixo
incha os olhos
congestiona as vias respiratórias
acelera batimentos cardíacos
espalha calor pelo corpo
constrange quando é na frente dos outros

chorar me sarou de uma conjuntivite insistente
dizem que sal cura cicatriza etc e tal
sal de lágrimas pode mais
a cada milágrimas sai um milagre
me disseram uma só vez
notas de chegada#4
.

o carnaval jogou meu corpo nos excessos
de cores, brilhos, danças, misturas
testou o que se sei sobre meu limites

multidão é perdição
as fricções dos corpos tensionaram
os contornos do meu corpo
as fronteiras porosas das selfs
e as tramas dos tecidos
roupas se tornavam esponjas
encharcadas de todos os suores
confundindo as umidades dos corpos
e as potências de minhas glândulas


voltei com olhos de fantasia
e desejo de morar naquele lugar que desconheço
voltei sem saudades da minha cama
do gato e das roupas que ficaram
do meu lugar nesta cidade
daquilo que chamo de casa
voltei sem sentimento de pertencimento

me perdi
Oxóssi mora na minha cabeça.
Dela, ele observa o mundo
o movimento dos seres.
Espera o melhor momento.
Ele sabe para quê, mas ainda não me disse.



                                           Do vitrô do alpendre
Uberaba|MG                         minha criança passava horas observando a rua.
90's                                     Ela gostava de se sentir camuflada no vitrô
                                           para olhar as pessoas vivendo.



Aguardo Oxóssi me ensinar
sobre o melhor momento
daquilo que nunca se sabe antes de acontecer.
Com ele aprendo que
o vazio da espera não é desatenção.



Expurgo
Concepção e Performance | Cássia Nunes
Voz em off | Estelina Nunes Caixeta
Mixagem de som | Bruno Abdala
ROÇAdeira - Encontros Performáticos em Lugares Improváveis | Sessão 3#re_Quebra (Goiânia-GO, 2017)
Fotografia de Júlia Aguiar












Jogos de curadoria
Performance
Sind-Lauper - Sindicato das Loucas Artistas Unidas da Performance
ROÇAdeira - Encontros Performáticos em Lugares Improváveis | Sessão 3#re_Quebra (Goiânia-GO, 2017)
Fotografia de Júlia Aguiar











Desmoronamento
Cássia Nunes e Ana Reis
Performance
ACASAS (Goiânia-GO, 2017)
Fotografias de Sílvia Patrícia


Torrões de terra vermelha são carregados por duas mulheres. Ações de desestabilização geradas na experimentação da tensão entre peso e equilíbrio, levam ao desmoronamento dos torrões, borrando o espaço. Dois objetos de bambu são ativados enquanto dispositivos de leitura sensorial dos resíduos e rastros deixados pelos movimentos de vibrações e oscilações disruptivas instaurados pelo confronto dos corpos.























mijar na cama aos 33



:
estou no quarto de tia Alfredina em Coromandel
estive ali por todas as férias de minha infância
sua casa, seus móveis e objetos de costura
os botões
gostava dela daquele jeito de criança se sentir confortável na vida do outro
se projetar pertencendo ao espaço alheio
sentir aquela sensação prazeirosa de deslocamento e novidade 
desejo estético de habitar o lugar extracotidiano

estou no banheiro dentro de seu quarto
penso que seu quarto não tinha banheiro, ele ficava no corredor
me preocupo se alguém chegará, pois estou mijando de porta aberta
acordo quente e úmida



Poutpourrete
Performance
Sind-Lauper - Sindicato das Loucas Artistas Unidas da Performance
(Goiânia-GO, 2017)

Performance realizada no dia 19 de outubro de 2017 na porta da Assembléia Legislativa de Goiânia durante a solenidade de entrega do título de cidadão goiano ao desprefeito de São Paulo João Dória.











notas de chegada#3
.
lá a vegetação estava muito seca. as cores meio desbotadas. muitas árvores sem folhas. pastos ralos e vacas magras. vi uma morta. calor escaldante. nunca vi tantos carros abandonados, despedaçados e enferrujados. entrar na água era um bálsamo. eu via muita beleza nisso tudo. uma beleza dura, árida, difícil. sabe? a densidade e grandiosidade das rochas marcam a paisagem. desafiam nosso entendimento do que é grande, pequeno, ínfimo. às vezes, durante os deslocamentos de carro, eu elegia os segundos que as coisas permaneciam em minha vista como uma unidade de medida possível e inexata, capaz de mensurar extensões. coisas humanas duravam muito pouco nas minhas vistas. as cavernas guardam algo de imponderável! são imensidões abertas debaixo da terra me convidando a estar mais. acho q fiquei muito pouco. é que sou do tipo slow | contemplativa. devo voltar em novembro, quero dormir pelo menos uma noite dentro de uma das cavernas. já o meu presente pra vc é uma leveza achada no meio disso tudo. uma parte transportável daquele lugar.

Surrada
Cássia Nunes e Ana Reis
Performance
Artilharia (Goiânia-GO, 2017)
Fotografia de Ilâne Nunes


No latejamento das experiências opressoras que se impõem sobre nossos corpos em uma sociedade machista, convocamos as mulheres para contragolpear, cortar e surrar esse bicho.deus.falo.coiso do patriarcado.







Sismografias
Articulação geral:  Cacá Fonseca
Criação e Performance: Ana Reis, Candice Didonet, Cássia Nunes, Ricardo Alvarenga, Thiago Costa
Ativação corporal: Marila Velloso
Criação musical: Igor Zargov
Criação audiovisual e Fotografia: Filipe Britto
Colaboração: Mary Carmen Niella
Produção executiva: Cacá Fonseca
Acessoria de Produção: Pedro Britto
Desenho de luz: Ricardo Alvarenga
Operação de luz e cenotécnica: Pedro Britto





O espetáculo Sismografias  foi apresentado no Teatro do Centro Cultural UFG (Goiânia-GO) nos dias 10 e 11 de março de 2017 e configurou uma experiência performativa com duração de 50 minutos. Concebido na Residência Artística homônima realizada na Fazenda Fortaleza (Cumari-GO) em fevereiro de 2017, trata-se de uma criação colaborativa entre 11 artistas, entre coreógrafos, performers, músico, arquiteto e artista visual que explora as intersecções entre geografia e dança, em experimentos coreogeográficos, onde os corpos configuram-se como acionadores sensoriais das vibrações da crosta terrestre, desde as mais sutis e ínfimas às extremas e disruptivas. Este projeto foi financiado pelo Edital de Dança da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte do Governo de Goiás (2015).


Blog do projeto: www.sismografiascorporais.wordpress.com/