.
.
.
.
.
.
.
homem:
makan, o que há de errado com seu amigo?

makan: é a viagem.
homem: é verdade, ele não está bem hoje!
makan: maata, o que há de errado?
maata: nada, graças a deus!
makan: não. eu te conheço!
maata: nada, graças a deus! não gosto de histórias de viagem. não gosto de viajar. não gosto de ver ninguém partir. um dia, um amigo veio me visitar. o nome dele era ethmane. ele perguntou: "maata, está livre?", respondi: "sim, estou!"; ele então me mostrou dois bilhetes de avião "um para mim, outro para você. vamos sair daqui"; eu disse: "não vou!", ele implorou para que eu fosse. eu disse: "ethmane, você é meu amigo, um bom amigo! você tem consideração por mim e quer me agradar, também quero! mas, não quero sair daqui! e não quero que você saia também!". esse ethmane, hoje, não sei por onde anda. ainda penso nele. talvez, isso explique o peso no meu coração.

(heremakono, dir. abderrahmane sissako, 2002)
.
.
.

.
.
.
.
.
.
grandes mudanças ocorrem após ciclos de nove meses

observe a vida dos outros
veja como pilhas de cartas, bilhetes, fotografias e objetos importantes vão parar dentro de sacos pretos 100 litros
quando criança eu gostava de ficar no vitrô do alpendre da casa onde morava
observe a vida dos outros
não gosto de ficar quando as pessoas saem
nos últimos dias, decidi sempre sair antes
quando os outros partem, parece começar uma daquelas histórias "e foram felizes para sempre"
parece
de vez em quando, parta também
e sinta a sensação da não existência de tais historinhas
deseje voltar pra perceber a impossibilidade disso acontecer
se você for cabeça dura ou medrozo demais, volte e encontre todas as ausências
provavelmente, sairá correndo como um tolo abana lenço de cais
observe a vida dos outros
e vá embora
.
.
.
.
>>>
.
.
.
.
meu amigo,


somos irmãos gêmeos postiços. depois de nove meses juntos, seu parto (partida) forçou o meu (novo de novo).
novas luzes, novos rumos.
não repare, mas vou sair antes de você terminar de esvaziar essas gavetas em busca de novos espaços e virar o carro na direção da estrada.

com amor,
cássia
.
.
.
.
.
.
.

Um comentário:

Helio Gonçalves disse...

Adorei o poema "Meu amigo,..." muito bom!