:: os cômodos ::

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notas de chegada#1
.
Amanhecer em Salvador e partir para dormir em Goiânia.
Durante o banho da chegada, procuro me situar sentindo a temperatura e volume da água que cai do chuveiro, me esforço para aquietar o corpo ao perceber que internamente ainda estou em movimento. Fecho os olhos durante o banho e se abre uma janela através da qual vejo estradas, construções e luzes passando com a velocidade que me trouxe.
Debaixo das cobertas, sobre o colchão estático, permaneço em deslocamento.



 
estudos de luz
.exercícios de acordar cedo
#2




































deglutindo
o desejo
do orgânico cotidiano
com seus orifícios
de rugosidades viscosas
e penetráveis






transitório II














esparramar-se no mundo


e as coisas continuam a viver
em mim






estudos de luz
.exercícios de acordar cedo
#1










transitório I





























Ateliê do Alex Botega
Tapiocanga, Pirenópolis-GO
jan.2015



                                                            quintal.
                                                             

                                                              .donde






tramar luminosidades






                                                                           passear com moscas







profanar pão de queijo







       entre
////habitar\\\\









colecionar esquecimentos

















qual o espaço para a arte feita com sutilezas?









a novidade da casa

ontem, enquanto limpava casa levei um susto
daqueles que te faz sorrir e arregalar os olhos.
dias atrás, comprei um pequeno cacto
ele veio com aquelas flores artificiais que misteriosamente se fecham quando são molhadas
eram vermelhas
arranquei as florinhas e...
o cacto floriu por si
flores brancas
o libertei?


:.


guto diz: Reconciliação vegetal...
ou melhor, reconciliação vegetal/mineral/animal!


:.



"já qui tu vai lá prá fêra...
trais pra mim uãs brividade
qui eu quero matá a sôdade
fais tempo qui fui na fêra
ai sôdade..."
[o pidido, elomar]




junho
domingo de feira do troca
duas vezes por ano, pessoas se reunem na praça da igreja na currutela de olhos d'água pra trocar o que seja
forram a grama e espalham tudo que levaram
eu fiquei perambulando com uma mochila cheia de troços
uns vão porque produziram um, ou vários, gêneros de coisas e desejam voltar com outros, o que tiver por lá
outros vão só pra se sentir ali
existe diferença entre necessidade e diversão?
no meio daquela movimentação de pessoas
tem também quem vai pra vender (e não são poucos)
mas, não era feira do troca?
há também quem quer lucrar sem pegar no dinheiro
como assim?
é, tem gente que tenta tirar vantagem em cima de quem está doido pra trocar alguma coisa
a filosofia do seis por meia dúzia nem sempre predomina
só sei, que nas trocas que fiz senti uma sensação diferente
até abraço rola depois de fechar negócio
sem falar naquela senhora que só aceitou minha proposta porque queria me ver satisfeita
ela nem precisava da sandália, mas eu tava com os olhos brilhando em cima das plantas dela

agosto

ontem, perguntei pra meus alunos se eles sabem o que é feudalismo e capitalismo
reduzi a pergunta, fiquei só no capitalismo
fizeram silêncio, olharam pros colegas, gaguejaram
não responderam como aprendi na academia
outros professores diriam que eles não sabem porque são 'alienados'
mas eles sabem, e muito!
eles o vivem
tenho alunos serventes de pedreiro, artesãos, trabalhadores das pedreiras, do comércio e do turismo (qual a diferença entre estes três últimos mesmo?)
eles sabem sim
só organizamos em palavras o que eles percebem com seus corpos em movimento pela vida
gostaria de levá-los na próxima feira do troca
mas, dizem que chove muito e vira uma lamaceira






saí de casa com:
1 mochila peruana que foi de uma prima minha
1 par de sandálias usadas umas três vezes só
1 par de sandálias da mãe do vinícius
4 trequinhos de pregar na parede para pendurar outros trecos
X penas de pavão recolhidas aqui na chácara no período em que os bichos trocam a penugem
1 garrafão de vinho ruim
4 calotas velhas do carro do vinícius
1 capacete estragado
1 fruteira gigante e velha

as trocas:
1 planta com dois brotinhos pelas sandálias da mãe do vini
1 negócio estragado de escovar algodão pela fruteira
1 bolsa por 1 treco de pendurar
1 garrafinha de pinga+1 vela por 3 trecos
3 tapetes pelas minhas sandálias
não me lembro mais do que fiz da bolsa hippie

obs: voltei com as penas e o resto porque fiquei com preguiça de oferecer. comprei uns brincos de um indiano que estava acompanhado de sua esposa, eles me deram um bolinho de mandioca e um pedaço de torta de maçã com canela. juro não ter pedido nem feito cara de fome! esse foi o momento mais bonito de toda a feira, foi o que menos entendi. voltei pensando nesses dois.