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uma performance é um disparador de performances


[FABIÃO, Eleonora. Programa performativo: o corpo-em-experiência. In: ILINX - Revista do LUME. n.4, dez. 2013]







[
tenho vivido uma crise que se estrutura em insights reflexivos, disparados por estímulos sensoriais cotidianos
engraçado falar que uma crise possui uma estrutura
estes insights reflexivos são formados pela mentalização de palavras e imagens desordenadas
não tenho conseguido juntar estes fragmentos e construir uma análise consistente capaz de me organizar
estes fragmentos são quando me percebo sentindo nos interstícios das estruturas discursivas que dão rumo e forma ao movimento ordenado das pessoas pela cidade
são lampejos
que me fogem
pois a eles não me detenho
pois são sensações do meu corpo
pois estou a sentir tantas coisas
pois meu corpo vai de um lugar à outro num trânsito do sentir
pois estou com preguiça das palavras

]sou uma professora que explica coisas sobre a vida humana em sociedade
uso palavras e seus significados para desenvolver algum conhecimento com meus alunos
tenho lapsos de memória durante as aulas
sofro de esquecimentos súbitos
pois tento fazê-los conhecer ideias sem corpo
discurso – organizo palavras sentidos coesão coerência – diante de nossas carentes experiências de corpo[

é uma crise que envolve esclarecimentos
esclarecimentos da qualidade do sentir
pois sentir é apenas um dos estilos de ser
a angustia da exigência por totalidades discursivas controláveis estancam a energia criativa

lançar-se à experiência do viver-compondo nesta forma de ser fragmentada
viver-compondo fora do discurso
viver-compondo no sentir
]






Dá-me tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
Não era usando como instrumento nenhum de meus atributos que eu estava atingindo o misterioso fogo manso daquilo que é um plasma - foi exatamente tirando de mim todos os atributos, e indo apenas com minhas entranhas vivas. Para ter chegado a isso, eu abandonava a minha organização humana - para entrar nessa coisa monstruosa que é a minha neutralidade viva.
- Sei, é ruim segurar minha mão, É ruim ficar sem ar nessa mina desabada para onde eu te trouxe sem piedade por ti, mas por piedade por mim. Mas juro que te tirarei ainda vivo daqui - nem que eu minta, nem que eu minta o que meus olhos viram. Eu te salvarei deste terror onde, por enquanto, eu te preciso. Que piedade agora por ti, a quem me agarrei. Deste-me inocentemente a mão, e porque eu a segurava é que tive coragem de me afundar. Mas não procures entender-me, faze-me apenas companhia. Sei que tua mão me largaria, se soubesse.
Como te compensar? Pelo menos também usa-me, usa-me pelos menos como túnel escuro - e quando atravessares minha escuridão te encontrarás do outro lado contigo. Não te encontrarás comigo talvez, não sei se atravessarei, mas contigo. Pelo menos não está sozinho, como ontem eu estava, e ontem eu só rezava para poder pelo menos sair viva de dentro. E não apenas viva - como estava apenas viva aquela barata primariamente monstruosa - mas organizadamente viva como uma pessoa.
A identidade - a identidade que é a primeira inerência - era a isso que eu estava cedendo? era nisso que eu havia entrado?
A identidade me é proibida, eu sei. Mas vou me arriscar porque confio na minha covardia futura, e será a minha covardia essencial que me reorganizará de novo em pessoa.
Não só através de minha covardia. Mas me reorganizarei através do ritual com que já nasci, assim como no neutro do sêmen está inerente o ritual da vida. A identidade me é proibida mas meu amor é tão grande que não resistirei à minha vontade de entrar no tecido misterioso, nesse plasma de onde talvez eu nunca mais possa sair. Minha crença, porém, também é tão profunda que, se eu não puder sair, eu sei, mesmo na minha nova irrealidade o plasma do Deus estará na minha vida.
Ah, mas ao mesmo tempo como posso desejar que meu coração veja? se meu corpo é tão fraco que não posso encarar o sol sem que meus olhos fisicamente chorem - como poderia eu impedir que meu coração resplandecesse em lágrimas fisicamente orgânicas se em nudez eu sentisse a identidade: o Deus? Meu coração que se cobriu com mil mantos.
A grande realidade neutra do que eu estava vivendo me ultrapassava na sua extrema objetividade. Eu me sentia incapaz de ser tão real quanto a realidade que estava me alcançando -  estaria eu começando em contorções a ser tão nuamente real quanto o que eu via? No entanto toda essa realidade eu a vivia com um sentimento de irrealidade da realidade. Estaria eu vivendo, não a verdade, mas o mito da verdade? Toda vez em que vivi a verdade foi através de uma impressão de sonho inelutável: o sonho inelutável é a minha verdade.
Estou tentando te dizer de como cheguei ao neutro e ao inexpressivo de mim. Não sei se estou entendendo o que falo, estou sentindo - e receio muito o sentir, pois sentir é apenas um dos estilos de ser. No entanto atravessarei o mormaço estupefato que se incha do nada, e terei que entender o neutro com o sentir.
O neutro. Estou falando do elemento vital que liga as coisas. Oh, não receio que não compreendas, mas que eu me compreenda mal. Se eu não me compreender, morrerei daquilo de que no entanto vivo. Deixa agora eu te dizer o mais assustador:
Eu estava sendo levada pelo demoníaco.
Pois o inexpressivo é diabólico. Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco. Se a pessoa tiver coragem de largar os sentimentos, descobre a ampla vida de um silêncio extremamente ocupado, o mesmo que existe na barata, o mesmo nos astros, o mesmo em si próprio - o demoníaco é antes do humano. E se a pessoa vê essa atualidade, ela se queima como se visse o Deus. A vida pré-humana divina é de uma atualidade que queima.

(C.Lispector, A paixão segundo G.H.)







“El Arte del performance o Arte Acción recurre a su fugaz soporte: el tiempo, el espacio, y a su poética de signos, símbolos y metáforas mutantes para producir un evento el cual tiene el potencial de ser cambio, transformación, epifanía y apertura, sobre todo cuando ocurre fuera de los espacios oficiales del arte. Un evento determina cómo vemos y de qué manera nos relacionamos con la realidad. La experiencia, en performance, busca desafiar los significados sin aludir a contenidos específicos.” (Elvira Santamaría)


www.elvirasantamariatorres.co.uk
















Para finalizar direi algo referente ao corpo no referente à realidade latino-americana e especificamente a brasileira: o confronto do corpo, do fazer, é obviamente uma característica do terceiro mundo por justamente sermos economicamente subdesenvolvidos e justamente por isso mesmo o corpo está muito mais presente em qualquer tipo de ação do que em qualquer país superindustrializado conseqüentemente super organizado, senão vejamos: numa obra, ao mesmo tempo que são utilizados os últimos tipos de máquinas, coabita ao lado dessa perfeição tecnológica o trabalho braçal nos seus aspectos mais primários, é incrível que o estágio primário do trabalho ou seja carregar com as próprias mãos enormes calhaus (como na idade da pedra) coabita/ e simultaneamente (sic.) com as mais avançadas máquinas de nossa época. No plano artístico podemos ver que Flávio de Carvalho nos idos 50 já tinha uma atitude no sentido do corpo, ou seja a consciência do corpo e aí vemos que o processo brasileiro nada tem haver com a body art (arte do corpo), principalmente por a mesma ser ligada aos países super industrializados estando portanto muito distante de nossa realidade cotidiana além do que vejo eu no estigma e atuação do body artista sua ligação direta com a cultura judaico-cristã no que ela tem de mais primário e negativo e consequentemente degradante ou seja a auto-flagelação, se na Idade Média os fanáticos se autoflagelavam com pregos, chicotes, etc, hoje os artistas da body art empregam giletes, armas de fogo, anzóis ou o que seja, portanto não vejo a body art como celebração do corpo mas justamente a negação total do próprio, uma regressão; é a negação da vida........a criança se autodilacera para que seus pais aflitos a confortem em seus braços.................... UFFFFAAAAAAAAAA...........................NO Brasil o corpo ainda sua.


Barrio

Agosto 1978
in Caderno Livro, 1978





















............. SITUAÇÃO ................. CIDADE .......... Y .............. CAMPO ..................(1970). 72 ÷ 9 = 8 8 = energia condensada Energia condensada = Pão = 8 pacotes de bisnaga/pão
Local de Realização do Trabalho: sobre uma estrada que divide em duas a Lagoa de Marapendi, situada entre o Mar e a Montanha.
Trajeto...........................
Copacabana, Ipanema, Leblon, Av. Niemeyer, Barra da Tijuca, Jacarepaguá.
Trabalho realizado na Guanabara (Brasil) 1970.







Artigo sobre Artur Barrio 

Trabalhos de Artur Barrio 

















escrever sobre a casa é livrar-se dela







Splitting
Gordon Matta-Clark, 1974








"A árvore se refugia na folha, a casa na porta e a cidade na casa. E eu contemplava o mesmo espetáculo, sempre e sempre. A árvore convertida em folha, a casa em porta e a cidade numa casa. Por isso, devia reunir esforços para não refugiar-me em minhas próprias mãos."

(Fando y Lis / Jodorowsky, 1968)
















Pra ter a casa habitada é preciso deixá-la suja!

Arredar uma mesa que ficava encostada na parede já parece um convite para ocupar o espaço e dinamizá-lo.

Ando desleixada com a limpeza, porém parece que tudo está organizado.
Até demais!
A porta da sala já não abro mais, com o tempo passou a fazer um barulho insuportável raspando no chão.
Somente a porta da cozinha!

Reduzir-me em minhas próprias mãos.
Correr o risco de se quebrar de tanto pressionar com os dedos.
Escorrer entre os próprios dedos.
Segurar-se com as próprias mãos, alojar-se na palma destra, não ver além do fim da linha da própria mão.
Sabe-se que há mais, sempre há!

Penso que chegará a hora em que desistirei de abrir todas as portas e janelas e me mudarei.
Não terei casa.
Tampouco louça, panelas, guarda-roupas, geladeira, fruteira, lixo, gavetas, estantes.
Nada que se guarde, que empoeire, que pese e imobilize para uma ação rápida e espontânea.


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"a casa pode ser uma casa.
uma vivenda.
uma oca.
um apartamento.
uma cela.
uma árvore.
um quarto de hospital.
uma sala.
uma cozinha.
uma calçada.
uma caixa.

a minha casa pode não ser nada disso."



(Poema do livro-objeto Os eventos são quase sempre os mesmos de Lourdinha Barbosa. O livro é composto por envelopes de cartas em caixinha de papelão)


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escrever um livro em envelopes é um convite ao desalojar-se.


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Pegar todas as roupas e sapatos, neles plantar espécies de samambaias e outras plantas que vivam dependuradas e depositar em casas abandonadas.
Convidar as pessoas para que visitem os locais e levem água para molhá-las.
Quando não mais vivos estiverem os vasos-vestimentas, simbolizada estará a mudança e o abandono desta mania de se fixar.






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tá osso?
pega na escova!


















19

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Os filósofos costumam falar da vontade como se fosse a coisa mais conhecida do mundo. Schopenhauer deu mesmo a entender que a vontade é a única coisa que conhecemos, que conhecemos perfeitamente, sem mais nem menos. Mas sempre me parece, nesse caso, que Schopenhauer fez apenas o que os filósofos costumam fazer: adotou e exagerou um preconceito popular. "Querer" me parece, antes de mais nada, algo complicado, algo que só possui unidade como palavra. E é exatamente em uma única palavra que reside o preconceito popular que enganou a pouca prudência dos filósofos. Sejamos, pois, mais sérios, mais discretos. Sejamos menos filósofos e admitamos que em todo querer há, primeiramente, uma pluralidade de sensações, ou seja, a sensação do estado do qual queremos nos afastar, a sensação do estado ao qual queremos chegar, a sensação do "afastar" e do "chegar". Além disso, há uma sensação muscular que se manifesta simultaneamente, e que entra em jogo desde que o "queiramos", mesmo sem movimentar "braços e pernas". Do mesmo modo, várias outras sensações devem ser consideradas como ingredientes da vontade, assim como a reflexão. Em cada ato da vontade há um pensamento que comanda, e não devemos acreditar que se possa separar este pensamento do "querer", como se ainda, depois disso, houvesse vontade! Em terceiro lugar, a vontade não é somente um complexo de sensações e reflexões, mas também um estado afetivo, a emoção derivada do comando. O que se chama "livre arbítrio" é essencialmente o sentimento de superioridade ante um subalterno. "Eu sou livre, ele deve obedecer", eis o que há no fundo de toda vontade, a certeza íntima que constitui o estado de ânimo de quem manda. Querer significa ordenar a algo dentro de si, que obedece ou, pelo menos, é considerado obediente. Mas vejam qual é o aspecto mais estranho dessa vontade, dessa coisa tão complicada, para a qual o povo tem uma só palavra. Sendo nós, no caso citado, ao mesmo tempo os que comandam e os que obedecem, e conhecendo, na hora de obedecer, as sensações de constrangimento, obrigação, pressão, resistência, movimento, que costumam começar imediatamente após o ato da vontade, e tendo nós, por outro lado, o hábito de ignorar essa dualidade, de nos iludirmos a seu respeito, utilizando o conceito sintético "eu", toda uma cadeia de conclusões errôneas, e, consequentemente, de falsas valorizações da própria vontade, se liga ainda ao querer. Assim, aquele que quer julga, de boa fé, que basta querer para agir, mas, na maioria dos casos, a vontade só acontece quando ocorre a eficácia do comando, isto é, a obediência. Como resultado, a ação, a aparência, se traduz na sensação de que havia uma necessidade de efeito. Aquele que quer, passa a imaginar, com alguma certeza, que querer e fazer são idênticos. Ele atribui o êxito à própria vontade, à realização do querer, e goza assim o prazer de superar obstáculos com a idéia de que sua vontade triunfa sobre as resistências. "Livre arbítrio" - eis a expressão para esse estado complexo de prazer resultante do querer, que comanda e ao mesmo tempo se identifica com o executante, que goza o triunfo obtido sobre os obstáculos, imaginando que a vontade triunfou. Aquele que quer obtém, assim, a sensação de prazer nascidas dos instrumentos que executam e realizam, das "vontades subalternas" ou "almas subalternas" que obedecem, pois nosso corpo não é senão uma coletividade de numerosas almas. L'effet c'est moi. Acontece aqui o mesmo que ocorre em toda coletividade organizada e feliz. A classe dominante se apropria dos sucessos da comunidade. Em todo querer se trata simplesmente de mandar e obedecer, dentro de uma estrutura coletiva complexa, constituída por "muitas almas". Portanto, o filósofo deveria considerar o querer a partir do ângulo da moral, a moral como conceito de soberania, de onde brota o fenômeno da vida.


[NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal. Tradução: Lilian Salles Kump. São Paulo: Centauro, 2006.]


























Cao Guimarães, Sopro. 2000, Vídeo
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Zhang Huan, My Rome. 2005, Performance, Capitoline Museum, Rome, Italy



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HEXAGRAMA 65
(P.Leminski)
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....Nenhuma dor pelo dano.
Todo dano é bendito.
....Do ano mais maligno,
nasce o dia mais bonito.
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1 dia,
...1 mês, 1
.........ano.
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"não era uma amizade, era uma proposta de vida. De certas pessoas não é possível aproximar-se de uma forma superficial, há que submergir profundamente e isso nos aconteceu: me submergi em Clarice e Clarice se submergiu em mim."
(Olga Borelli sobre Clarice Lispector em "Clarice: uma vida que se conta". Nádia Battela Gotlib. São Paulo: Editora Ática, 1995. p.395)
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.De: thiago costa
Para: porosoinc
Enviadas: Segunda-feira, 22 de Março de 2010 22:05:04
Assunto: //__``#
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apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme
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(charme, por Paulo Leminski)
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É outra coisa. A amizade. Por que se é amigo de alguém? Para mim, é uma questão de percepção. É o fato de... Não o fato de ter idéias em comum. O que quer dizer "ter coisas em comum com alguém"? Vou dizer banalidades, mas é se entender sem precisar explicar. Não é a partir de idéias em comum, mas de uma linguagem em comum, ou de uma pré-linguagem em comum. Há pessoas sobre as quais posso afirmar que não entendo nada do que dizem, mesmo coisas simples como: "Passe-me o sal". Não consigo entender. E há pessoas que me falam de um assunto totalmente abstrato, sobre o qual posso não concordar, mas entendo tudo o que dizem. Quer dizer que tenho algo a dizer-lhes e elas a mim. E não é pela comunhão de idéias. Há um mistério aí. Há uma base indeterminada... É verdade que há um grande mistério no fato de se ter algo a dizer a alguém, de se entender mesmo sem comunhão de idéias, sem que se precise estar sempre voltando ao assunto. Tenho uma hipótese: cada um de nós está apto a entender um determinado tipo de charme. Ninguém consegue entender todos os tipos ao mesmo tempo. Há uma percepção do charme. Quando falo de charme não quero supor absolutamente nada de homossexualidade dentro da amizade. Nada disso. Mas um gesto, um pensamento de alguém, mesmo antes que este seja significante, um pudor de alguém são fontes de charme que têm tanto a ver com a vida, que vão até as raízes vitais que é assim que se torna amigo de alguém. Vejamos o exemplo de frases! Há frases que só podem ser ditas se a pessoa que as diz for muito vulgar ou abjeta. Seria preciso pensar em exemplos e não temos tempo. Mas cada um de nós, ao ouvir uma frase deste nível, pensa: "O que acabei de ouvir? Que imundicie é essa?" Não pense que pode soltar uma frase destas e tentar voltar atrás, não dá mais. O contrário também vale para o charme. Há frases insignificantes que têm tanto charme e mostram tanta delicadeza que, imediatamente, você acha que aquela pessoa é sua, não no sentido de propriedade, mas é sua e você espera ser dela. Neste momento nasce a amizade. Há de fato uma questão de percepção. Perceber algo que lhe convém, que ensina, que abre e revela alguma coisa.
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*Deleuze, Amizade.
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"Ressaltar a importância da amizade enquanto Política, experimentando outras formas de sociabilidade, com ênfase na pluralidade dos participantes, constituiria-se como um exercício do político ante essa sociedade que limita e prescreve as formas de relacionamento, e um estímulo crucial para a reflexão sobre a identidade e o significado de suas inter-relações.
(...)
Podemos observar nos últimos anos um crescente interesse na filosofia francesa pela amizade e por um novo pensamento de comunidade e sociabilidade. Uma série de pensadores, entre eles Maurice Blanchot, Michel Foucault, Jaques Derrida, Gilles Deleuze, Felix Guattarri, Jean-Luc Nancy, têm colocado a questão da amizade e da comunidade no centro de sua filosofia, com freqüência no contexto de uma tentativa de recuperar o político para a comunidade, de re-pensar, re-construir, o político e a democracia. Ou seja, a amizade sendo deslocada de uma esfera privada, da intimidade, para o mundo, a sociabilidade, o público. Um estudo histórico do fenômeno da amizade e uma análise de sua dimensão política/ética/estética permitir-ia investigar a noção de comum nos textos destes e autores afins; e reconstruir a partir desses textos, o exercício da amizade como reinvenção do político, uma ética de amizade no contexto de uma possível atualização da estética da existência, permitindo transcender o quadro da auto-elaboração individual para se colocar numa dimensão coletiva, como alternativa ao esvaziamento da esfera pública.
Uma política não centrada no Estado, e sim existencialista, na procura de autenticidade, o que permite fazer uma ponte entre o pensamento de Foucault, Derrida, Deleuze e os de Hannah Arendt, como sinaliza Ortega ao defender a tese de que todos esses autores, no fundo, visam a uma alternativa política que vai além de uma política partidária e que propõe a recuperação do espaço público: a política compreendida como atividade de criação e de experimentação. Política como dinâmica, acontecimento e começo, como interrupção de processos automáticos. Nesse sentido, a amizade, representa, um ‘exercício do político’, um apelo a experimentar formas de sociabilidade e comunidade, procurando alternativas às formas tradicionais de relacionamento."
(Edson de Barros em "gerAção Comum / a mania de dizer A GENTE: Portas Lógicas e Conexões Periféricas para entender a Amizade como Polarização da Arte", disponível
aqui)
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Snowalk. Andrés Monzón-Aguirre, 2009



"Las obras de Ana Mendieta que mas me llaman la atención son aquellas en las que su cuerpo esta directamente insertado en la naturaleza. En religiones indígenas americanas, como también en el budismo, el cuerpo humano no se separa de la energía que constituye el cosmos. El cuerpo es solamente parte de la naturaleza. El dolor es un método de meditación que reafirma esta idea, porque puede borrar temporalmente la división entre el cuerpo y sus alrededores. Llega un momento al hacer este ejercicio en el que el dolor es tal que se deshace de el ego. No considero esto un sacrificio ni tampoco masoquismo." (Andrés Monzón-Aguirre)
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"Três meses depois receberam um envelope grande com vinte e nove cartas e mais de cinqüenta retratos, que tinham se acumulado nos ócios do alto-mar. Embora não pusesse datas, era evidente a ordem em que tinha escrito as cartas. Nas primeiras, contava com o seu humor habitual as peripécias da travessia, a vontade que lhe dera de atirar pela amurada o comissário que não lhe permitira trazer os três caixotes no camarote, a imbecilidade lúcida de uma senhora que se aterrava com o número 13, não por superstição mas porque lhe parecia um número que ficara por terminar, e a aposta que ganhara no primeiro jantar porque reconhecera na água de bordo o gosto das beterrabas noturnas das fontes de Lérida. Com o correr dos dias, entretanto, a realidade de bordo interessava-o cada vez menos e até os acontecimentos mais recentes e triviais lhe pareciam dignos de saudade, porque à medida que o navio se afastava a memória ia se tornando triste. Aquele processo de nostalgização progressiva era também evidente nos retratos. Nos primeiros parecia feliz, com a sua camisa de inválido e o seu topete nevado, no encapelado outubro do Caribe. Nos últimos, era visto com um sobretudo escuro e um cachecol de seda, pálido por natureza e taciturno pela ausência, na coberta de um navio de angústia que começava a sonambular por oceanos outonais. Germán e Aureliano respondiam as suas cartas. Escreveu tantas nos primeiros meses que agora se sentiam mais perto dele do que quando estava em Macondo e quase se aliviavam da raiva de que tivesse ido embora. No princípio, mandava dizer que tudo continuava igual, que na casa onde nascera ainda havia o caracol rosado, que os arenques secos tinham o mesmo sabor sobre a torrada, que as cascatas da aldeia continuavam se perfumando ao entardecer. Eram outra vez as folhas de cadernos retomadas com garranchinhos roxos, nas quais dedicava um parágrafo especial para cada um. Entretanto, e embora ele mesmo não parecesse perceber, aquelas cartas de recuperação e estímulo se iam transformando pouco a pouco em pastorais de desengano. Nas noites de inverno, enquanto fervia a sopa no fogão, desejava o calor dos fundos da loja, o zumbido do sol nas amendoeiras empoeiradas, o apito do trem na sonolência da sesta, da mesma forma como desejava em Macondo a sopa de inverno no fogão, os pregões do vendedor de café e as cotovias fugazes da primavera. Aturdido por duas saudades colocadas de frente uma para a outra como dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido de irrealidade até que terminou por recomendar a todos que fossem embora de Macondo, que esquecessem tudo o que ele ensinara do mundo e do coração humano, que cagassem para Horácio e que em qualquer lugar em que estivessem se lembrassem sempre de que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda primavera antiga era irrecuperável e que o amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera.
Álvaro foi o primeiro a seguir o conselho de abandonar Macondo. Vendeu tudo, até a onça cativa que zombava dos transeuntes no quintal da sua casa, e comprou uma passagem eterna num trem que nunca acabava de viajar. Nos cartões postais que mandava das estações intermediárias, descrevia aos gritos as imagens instantâneas que tinha visto pela janela do vagão, e era como ir rasgando em tiras e jogando ao esquecimento o longo poema da fugacidade: os negros quiméricos nos algodoais da Louisiana, os cavalos alados na grama azul de Kentucky, os amantes gregos no crepúsculo infernal do Arizona, a moça de suéter vermelho que pintava aquarelas nos lagos de Michigan e que lhe deu com os pincéis um adeus não era de despedida mas de esperança, porque ela ignorava que estava vendo passar um trem sem regresso. Em seguida foram Alfonso e Germán, num sábado, com a idéia de voltar na segunda-feira, e não se soube mais deles. Um ano depois da partida do sábio catalão, o único que restava era Gabriel ainda vivendo à deriva, à mercê da eventual caridade de Nigromanta, e respondendo aos questionários do concurso de uma revista francesa, cujo maior prêmio era uma viagem a Paris. Aureliano, que era quem recebia a assinatura, ajudava-o a encher os formulários, às vezes na sua casa, e quase entre os potes de louça e o cheiro de valeriana da única farmácia que restava em Macondo, onde vivia Mercedes, a sigilosa namorada de Gabriel. Era a última coisa que ia ficando de um passado cujo aniquilamento não se consumava, que continuava se aniquilando indefinidamente, consumindo-se dentro de si mesmo, se acabando a cada minuto mas sem acabar de se acabar nunca."
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Gabriel García Marquez. Cem anos de solidão. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 380-382
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o que fazem os insetos durante a chuva?
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nela eles morrem?
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Andrei Tarkovsky, A infância de Ivan (1962)
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Hans Sylvester, imagens do livro "Les Peuples de l'Omo"


Ana Mendieta, documentation of an untitled performance with flowers, ca. 1973 (Intermedia studio, University of Iowa). 35mm black-and-white photo negatives
Imagem de Yagul (1973)

Feathers on a Woman (1972)